Aroma, a História Cultural dos Odores – Constance Classen et alii

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Texto de Mayra Corrêa e Castro  do Blog As Melhores Partes dos Livros que Li

Este livro foi uma grata, gratíssima surpresa nas minhas vasculhadas pela Estante Virtual. Foi um dos primeiros livros que li da extensa bibliografia sugerida pela academia Nexus aos alunos do curso de Perfumaria Botânica. Meu exemplar está inteiramente sublinhado e me deliciei com cada informação que este grupo de pesquisadores trouxe sobre a questão dos aromas nas mais diversas culturas autóctones na Terra. Não consegui descobrir ainda se Constance Classen é antropólogo ou antropóloga. Se você descobrir, avise-me, por favor. Mas muita coisa que li do livro incluí nos meus cursos de aromaterapia.
Outra coisa surpreendente do livro é que ele foi editado pela Jorge Zahar sob o patrocínio de O Boticário, a empresa curitibana mais resplandescente de que costumamos nos orgulhar. Fico pensando que diretor de marketing andava pelo Boticário naquela época que achou que fosse importante patrocinar a edição de um livro como este… Ou vai ver foi uma daquelas decisões verticalizadas que acata quem tem juízo, celebra quem percebe a importância.
Não vou deixar aqui n´As Melhores Partes tudo que colhi deste formidável livro. Seria insano e talvez quase uma cópia não-autorizada, tamanha a extensão das citações. Vou colocar o que acho que é bacana para um leitor desavisado ou parcamente curioso do mundo dos perfumes conhecer.

Vocabulário do livro:
Parte da excitação que sentimos por ler coisas que não são da nossa área é aprender um vocabulário novo. O livro de Constance Classen oferece doses generosas deste tipo de excitação. Veja as expressões que são usadas no livro e com as quais me regalei página após página. (Tudo bem se você não se regalar. Eu sou linguista: quando vejo uma nova palavra ou um jeito diferente de usá-la, é como se eu estivesse tomando um vinho espetacular.)
“sociedade de mentalidade olfativa” (p. 15)
“o cheiro de santidade” (p. 16)
“perfumaria coletiva” (p. 36)
“distinções olfativas entre ricos e pobres” (p. 44)
“simbolismo olfativo” (p. 47)
“proteção olfativa” (p. 70)
“bolha olfativa”(p. 72)
“fobias olfativas” (p. 72)
“intimidade aromática” (p. 76)
“revolução olfativa” (p. 89)
“promiscuidade olfativa” (p. 93)
“reforma olfativa” (p. 93)
“nova ordem olfativa sanitarizada” (p. 94)
“informidade intrínseca do cheiro” (p. 97)
“linguagem primitiva do cheiro” (p. 98)
“sintaxe dos cheiros” (p. 98)
“defesa literária do cheiro” (p. 99)
“desodorização da sociedade” (p. 99)
“aromáfilos” (p. 102)
“consciência olfativa superior” (p. 103)
“ignorância olfativa do Ocidente” (p. 103)
“condição olfativa do Ocidente” (p. 103)
“osmologias ou sistemas classificatórios baseados no cheiro” (p. 107)
“aromas-força” (p. 108)
“paisagem de cheiro” (p. 109)
“seu próprio espaço olfativo” (p. 110)
“vocabulário olfativo” (p. 121)
“ritos do cheiro” (p. 135)
“fluxo olfativo” (p. 135)
“costumes olfativos” (p. 136)
“sacrário aromático” (p. 143)
“risco olfativo” (p. 147)
“simpatias e antipatias olfativas” (p. 152)
“práticas de controle olfativo” (p. 155)
“regime de silêncio olfativo” (p. 173)
“neutralidade olfativa”(p. 173)
“liberdade de cheiro” (p. 174)
“utopia aromática” (p. 174)
“discurso olfativo racista” (p. 177)
“escala social olfativa” (p. 180)
“entretenimento olfativo” (p. 190)
“aura olfativa” (p. 193)
“psicologia olfativa” (p. 206)

O sentido do olfato:
“Os filósofos e cientistas desse período [séculos XVIII e XIX] decidiram que, enquanto a visão era o sentido preeminente da razão e da civilização, o olfato era o sentido da loucura e da selvageria.” (p. 14)
– E hoje eles decidem que o olfato não é um objeto científico de per se tanto quanto um espectro de cor ou uma frequência sonora…
“Entretanto, não foi apenas o perfume que se tornou feminilizado no século XIX, mas todo o sentido do olfato. A partir do Iluminismo, o olfato fora cada vez mais desvalorizado como meio de transmissão ou aquisição de verdades essenciais.” (p. 95)
– Não deixa de ser curioso que apenas 40 mulheres em toda a história do Prêmio Nobel tenham sido agraciadas com ele e, entre elas, Linda Buck, que o ganhou justamente estudando o olfato (2004, Nobel de Medicina).
“Como é viver numa sociedade onde o tempo é conhecido como uma sucessão de odores?” (p. 107)
– A partir deste capítulo, o livro fica interessantíssimo, se isso for possível pra um livro ótimo desde a Introdução. Constance começa a descrever a relação com o cheiro em culturas aborígenes. Algo louco! Você precisa ler!
“É interessante observar que, enquanto no Ocidente a visão é considerada o sentido da distância, o olfato suplanta-a amplamente, na experiência de aborígenes como os umedas.” (p. 110)
– Não disse que o troço fica cada vez mais interessante?! Imagine medir a distância em cheiro? Fenomenal!
“Os odores desafiaram sistematicamente as tentativas de classificação racional (ou ‘objetivas’) e provavelmente sempre o farão.
Contudo, é precisamente porque recebem tal carga de valor que as osmologias são reveladoras das preocupações essenciais de uma sociedade.” (p. 115)
– Já mencionei aqui o livro O Imperador do Olfato de Chandler Burr? Não, menciono agora. Vá lê-lo que esta história sobre as teorias do olfato dão muito pano pra manga.
“Não existem predileções e aversões naturais em matérias olfativas” (p. 116)
– Eu adoro esta afirmação de Constance Classen! Quando fiz um workshop com Sonia Corazza, aromacóloga das mais conhecidas e respeitadas no Brasil, ela nos contou sobre os três cheiros que representam perigo de forma universal: putrefação, fumaça e mofo. Mas isso não quer dizer que eles não sejam apreciados. Há gosto para tudo, até para aquilo que é perigoso. Também me recordo aqui de uma passagem no simpático livrinho de Bettina Malnic, O Cheiro das Coisas, em que ela cita uma pesquisa sobre a determinação genética em cima da predileção ou aversão que alguns fragrantes exercem sobre as pessoas. Ou seja, não importa se a causa é genética, interessa que aprendemos o cheiro das coisas. (Leia sobre esta pesquisa no meu site Casa Máy.)
“A ausência de um verdadeiro vocabulário olfativo nas línguas europeias tem preocupado desde há muito os cientistas ocidentais. Embora o nariz humano seja capaz de reconhecer milhares de diferentes odores, quase todas as nossas categorias de odor – suave, penetrante, azedo, etc. – são tomadas a partir de uma seleção limitada de termos gustativos. Ou então os cheiros são designados tomando-se como referência as coisas das quais emanam […]” (p. 121)
– Uma das coisas mais difíceis quando começamos a estudar perfumaria e temos que descrever aquilo que cheiramos é achar as palavras certas. Mas a gente aprende. Hoje, comigo, não parece mais tão idiota descrever o aroma de uma banana, por exemplo, embora eu passe a quilômetros das descrições de Luca Turin, pra mim o cara que mais bem descreveu seja qual cheiro de perfume for.
“Por que o odor é identificado com o eu em tantas culturas? A resposta está, sem dúvida, parcialmente fundamentada na extremamente vasta associação entre cheiro, respiração e vida.” (p. 128)
– Entendeu por quê?
“Na cultura do povo dogon do Mali, por exemplo, acredita-se que odor e som são fundamentalmente análogos, já que ambos viajam no ar.” (p. 131)
– Que implicações formidáveis para a linguagem dogon?! Posso imaginar que, para este povo, a gente não cheire um aroma, mas ouça um aroma.
“Se a vista – panorâmica, analítica e linear – é o sentido da modernidade, será o cheiro – pessoal, intuitivo e multiderecional – o sentido da pós-modernidade?” (p. 195)
– Não é uma bela proposição?
“Talvez em consequência do uso original do cheiro para distinguir se uma coisa é boa para comer ou não, o odor constitui um importante meio pelo qual os cunsumidores julgam o valor e a eficácia de um produto.” (p. 206)
– Este livro foi escrito em 1994. Hoje é figurinha batida que os consumidores compram produtos pelo cheiro e não por sua atestada eficácia. No workshop que citei que fiz com Sonia Corazza, ela nos trouxe uma experiência feita com shampoos: uma mesma fórmula com cheiro cítrico fez que consumidoras acreditassem que esta lavava melhor seus cabelos que a fórmula com cheiro de flor. E era apenas o cheiro que mudava de uma fórmula para outra.
– Acho surpreendente a citação que Constance traz de um artigo sobre a indústria de flavorizantes. Trata-se da opinião de um profissional flavorista, veja:
“’Em 20 anos… Apostarei com você que somente 5% das pessoas terão saboreado morangos frescos, de modo que, quer gostemos ou não, nós, os que trabalhamos na indústria de aromatizantes, estaremos realmente definindo o que a próxima geração pensa que é morango. E o mesmo pode ser dito de uma porção de outros alimentos que em breve estarão fora do alcance do consumidor médio’.” (p. 213-214)
“Ao reproduzirem [os flavoristas]unicamente aquelas notas consideradas essenciais ao gosto e cheiro característicos de um determinado produto, eles são capazes de produzir uma sensação ampliada do sabor/aroma deste produto. Por conseguinte, os sabores e aromas artificiais são, simultaneamente, muito menos e muito mais do que os seus originais. O nosso contemporâneo desejo insaciável de aromas e sabores é uma reminiscência do apetite medieval por especiarias. Mas ao passo que as espécies propiciavam aos medievais um gosto de Paraíso, os sabores artificiais sugerem mais a Disneylândia, um paraíso sintético de prazeres consumistas.” (p. 218)
– Pra mim, o livro de Constance não fecharia com melhor reflexão que esta.

O prazer do perfume:
– Constance cita Plínio:
“O prazer do perfume está entre as mais elegantes e também mais respeitáveis satisfações da vida.” (p. 23)
– Nos dias de hoje, ninguém mais crê que é um valor a elegância. What a pity. A última pessoa que se importou com a elegância foi Oscar Wilde, coitado.
– Constance cita Ateneu, escritor romano:
“Espalhem então tapetes macios sob o cão… e com óleo de manjerona untem-lhes as patas.” (p. 29)
– Dois milênios depois, a indústria ganha dinheiro com pet parfums
“Até mesmo em ocasiões relativamente informais, perfume seria oferecido a um convidado tão naturalmente quanto oferecemos, hoje, um cafezinho a uma visita.” (p. 31)
– Imagine a situação: você recebe seus amigos em casa e a primeira coisa que você lhes oferece não é uma xícara de café, mas um frasco de perfume para eles se borrifarem. Não seria super inusitado? Bem, na minha casa o povo vem e de vez em quando carrego minhas caixas de óleos essenciais pra baixo e fica todo mundo cheirando tudo…
“No Ocidente moderno, pensa-se em perfumes e alimentos como constituindo duas categorias muito diferentes, distintas em odor e comestibilidade. No mundo antigo, porém, não existia tal divisão: alimentos podiam ser perfumados e perfumes podiam ser – e, por vezes, eram – comidos.” (p. 33)
– Isto me fez lembrar dos Scent Dinners de Chandler Burr e desta coisa da casa Thierry Mugler ficar encomendando comida com o cheiro de seus perfumes.
“No Ocidente moderno, somos propensos a pensar no uso de perfumes como um assunto puramente individual. Na Antiguidade, porém, a perfumaria coletiva era um importante recurso para entreter e impressionar as massas e estabelecer a solidariedade do grupo.” (p. 36)
“Montar um bom espetáculo na Antiguidade envolvia, portanto, produzir uma boa fragrância.” (p. 36)
– Séculos depois a coisa evoluiu para o marketing olfativo. Ts ts ts…
“Sois um homem feliz, ó rei; cheirais de um modo sumamente dispendioso!” (p. 43)
– Constance traz esta história para mostrar que os aromas corporais sempre distinguiram ricos de pobres. É assim ainda hoje e esta constatação é perturbadora. Não podemos nada contra as percepções que os cheiros nos evocam. Perturbadora.
“ No exército romano, escudos, lanças e estandartes eram perfumados nos dias festivos. Perfumes também eram usados para adorno pessoal por aqueles soldados romanos que dispunham de recursos para tanto.” (p. 49)
– Tá, eu sei o que você está pensando. David Beckham teve antecessores e não criou sozinho a coisa do metrossexual.
“Só no século XVIII, quando entrou em voga a jardinagem paisagística, é que o jardim começou a perder sua intimidade aromática a favor de extensas vistas de verdes gramados e árvores.” (p. 76)
– Ah, então foi nesta época? Eu achei que os jardins deixaram de cheirar por causa dos agrotóxicos e da poluição…
“Comprar perfumes era como espalhar dinheiro ao vento.” (p. 94)
– Ou seja, tchurma, na primeira metade do século XIX, comprar perfume era antiburguês. E no século XXI seria o quê?  A coisa mais burguesa possível?
“Um conto popular hindu do sul da Índia fala de um rei cujo riso espalhava a fragrância de jasmim por muitos quilômetros à sua volta.” (p. 136)
– Os contos hindus são lindos.
“O uso de fragrâncias para aumentar a sensação de bem-estar das pessoas é conhecido como ‘aromaterapia’ ou ‘aromacologia’” […]
Com a aromaterapia, as fragrâncias deixam de ser unicamente estéticas: elas sao funcionais.” (p. 210)
– Constance, muito agradecida por ter se lembrado da gente no seu livro, viu?

O desprazer do cheiro ruim:
– Uma das contribuições do livro foi trazer várias citações de como os antigos romanos e gregos falavam sem pudores sobre o cheiro ruim das pessoas. Tudo que conhecemos sobre cheiros ruins vem dos relatos medievais e renascentistas das ruas de cidades como Paris e Londres. É ótimo conhecer o lado ruim do cheiro em latim também:
– Constance citando Marcial: “quando o glutão Sabidius sopra uma torta quente para esfriá-la, converte-a em excremento.” (p. 40)
– Imagine que bafo, meu!
– Agora mencionando uma das peças de Aristófanes: “[…] as mulheres mastigam alho pela manhã para esconder o cheiro da bebedeira da noite – um remédio eficaz mas não muito estético” (p. 41)
não muito estético! Hahahaha
“Entretanto, ainda que diferentes tipos de feminilidade fossem representadas como fragrantes ou malcheirosas de acordo com esses modelos [velhas e prostitutas não cheiravam bem], numa certa medida todas as mulheres eram consideradas no mundo antigo como portadoras de odores desagradáveis.” (p. 47)
– Se você já leu minha postagem sobre o livro O Segredo do Chanel Nº 5, vai identificar lá uma parte vital à construção do perfume por parte de Coco: que ele não cheirasse a mulheres do demi-monde. Tá vendo? Nem no século XX a gente se livra destes simbolismos olfativos de gênero. Ô, praga!
“Embalsamar, mumificar e incensar o cadáver eram recursos para evitar esse desagradável processo de decomposição e substituir o chocante odor da morte pelo suave aroma da eternidade.” (p. 51)
– Quão bem escrita não está esta frase, hein?
“Versalhes, por exemplo, apesar de todos os seus esplendores visuais, fedia a urina e excrementos. Uma certa tolerância aos odores de dejetos era, portanto, como acima assinalado, uma condição dos tempos.” (p. 74)
– Eu escrevi no meu Diário em Off uma croniqueta sobre o nojo como agente propulsor do desenvolvimento da civilização. Ficou engraçadinha de se ler, veja lá.
“Com efeito, em Paris em 1832, quando foram feitas tentativas para melhorar a remoção de lixo, os pobres sublevaram-se. Era uma questão de meio ambiente contra emprego, e, quando confrontados com essa escolha, muitas autoridades, homens de negócios e trabalhadores do século XIX ficaram do lado do emprego, como frequentemente fazem a respeito de alternativas idênticas nos dias de hoje. Ruas limpas eram um luxo, argumentaram, empregos eram uma necessidade.” (p. 91)
– Não posso deixar de reler este trecho e pensar neste “bendito” Código Florestal: florestas são um luxo, desenvolvimento pro Brasil é uma necessidade. Pois é…
“Em Londres, foi até levantada uma questão jurídica sobre quem tinha direitos de propriedade sobre os dejetos humanos – aqueles que os produziam, aqueles que eram os donos da propriedade onde eram produzidos, ou o Estado?” (p. 92)
– Que coisa surreal! Imagine o diálogo: – Eu sou mais dono do meu cocô que você, afinal fui eu que fiz! – É, mas você cagou no meu quintal e se eu não tivesse o quintal você não teria cagado; o seu cocô é mais meu que seu! – De jeito nenhum: o cocô é da companhia real de saneamento; quem cuida do cocô alheio tem mais direitos do que a bunda que o expeliu ou do que o terreno que recebeu seu perfume. Hahaha
“Portanto, enquanto que antes se pensava ser necessário deixar a pele sem lavar para impedir que fosse invadida por eflúvios externos, argumentava-se agora [no século XVIII]que era preciso lavar a pele a fim de permitir a saída de corrompidos fluidos internos.” (p. 93)
– Ok, esta é a explicação de por que as pessoas não tomavam banho antigamente, além do fato de que toda água era contaminada e o catolicismo reinante pregava como frivolidade o cuidado corporal. Mas o surpreendente desta explicação é sua perigosa atualidade. Posso imaginar que haja dezenas de milhares de pessoas que não tomam banho porque pensam exatamente como antes do século XVIII. Assustador…
“Ao referirem-se a aromas ‘execráveis’, Verlaine, Rimbaud e outros expuseram sua relutância em submeterem-se às estéreis convenções sociais da burguesia” (p. 99)
– Ai que ótimo! Constance conseguiu fazer crítica literária num livro de antropologia.
“O desafio olfativo para os que estão no poder consiste em como preservar sua condição inodora das arremetidas de odores provenientes desses grupos periféricos, que parecem estar sempre pressionando na direção do centro. O desafio para a periferia tem dois níveis: num, grupos marginalizados internalizam sua classificação olfativa e tentam obter respeitabilidade dissipando ou disfarçando seu presumido mau cheiro; no outro, tais grupos procuram afirmar suas próprias normas olfativas, avaliando como positiva a sua identidade olfativa e denunciando como falsa aquela outra identidade que lhes foi impigida pelos detentores do poder.” (p. 173)
– Relendo este trecho, é inevitável lembrar do episódio do “churrascão dos diferenciados” em frente ao shopping Pátio Higienópolis na cidade de Sao Paulo. Nada mais simbólico da luta de classes neste episódio que o cheiro de carne assando entrando pelos limpos corredores de um templo caro de consumo.
“Se o uso de perfumes torna as mulheres semelhantes a feiticeiras, não usar perfume também as assemelha a bruxas – pois nesse caso correm o risco de ser percebidas como malcheirosas.” (p. 176)
– E o dilema de Coco Chanel era criar um perfume que fizesse a mulher não cheirar à puta, nem a um ser assexuado. Mesma coisa.
“O nacionalismo americano define-se aqui como decididamente inodoro, quando comparado com os suspeitos odores de estrangeiros.” (p. 180)
– Esta citação dispensa comentários, mas não prescinde de risinhos.
“Os nazistas foram capazes de manter a visão e o som de suas atrocidades dentro de impenetráveis muralhas, mas o cheiro escapou e espalhou a horrível verdade.” (p. 185)
– Até a leitura deste livro eu nunca tinha parado para pensar no horror que deveria ser sentir o aroma de corpos calcinados a quilômetros de distância de um campo nazista.

Histórias paralelas:
“Com a introdução [no século XVII]do café, chá e chocolate, a Europa ficou mais sóbria.” (p. 79)
– Ah tá; também acredito.

CLASSEN, Constance. Aroma: a história cultural dos odores. Constance, Classen, David Howes, Anthony Synnott. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
Não há edições em português disponíveis. Mas a Livraria Cultura vende uma edição ebook do livro em inglês.

 

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